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História de nome 03

Por que as crianças nipo-brasileiras têm dois nomes

Dois milhões de pessoas de ascendência japonesa vivem no Brasil, e faz mais de um século que suas famílias resolvem o mesmo probleminha: como dar a uma criança um nome que funcione em português em voz alta e em japonês dentro de casa. As respostas são bem mais criativas do que um meio-termo.

O que mostra o registro dos Estados Unidos

1890raro nos registros dos EUA2020

Yumi está ausente do registro publicado dos Estados Unidos até os anos 1960, quando aparecem 56 meninas. Os anos 1970 ficam um pouco abaixo, com 53, e cada década completa seguinte é maior que a anterior: 107 nos anos 1980, 112 nos 1990, 160 nos 2000, 273 nos 2010. No que vai desta década a contagem está em 261. O registro anota o nome apenas entre as meninas.

Um navio e uma data que o Brasil ainda marca

Em 18 de junho de 1908 o Kasato Maru encostou no porto de Santos com 781 emigrantes contratados, o primeiro grupo enviado do Japão para trabalhar no café brasileiro. A Biblioteca Nacional da Dieta do Japão registra que no Brasil o dia ainda é lembrado como o dia da imigração japonesa. O que chegou em um navio são hoje, pela contagem do Ministério das Relações Exteriores do Japão em 2022, cerca de dois milhões de pessoas de ascendência japonesa, a maior população de ascendência japonesa fora do Japão.

Uma história desse tamanho precisa caber em alguma coisa pequena o bastante para ser dita em voz alta. Coube nos nomes.

O escrevente que acrescentou uma letra

No Discover Nikkei, Satomi Takano Kitahara conta como uma sogra chegou ao Brasil aos seis anos como Masako e saiu do cartório como Massako. O escrevente tinha feito a conta fonética: em português um s sozinho entre vogais fica brando, então Masako seria lido Mazako. Com dois, o som ficou de pé.

O nome sobreviveu à travessia trocando de grafia, o que resume bem o que aconteceu depois com milhares deles.

Nomes feitos para serem lidos duas vezes

A geração seguinte foi além e escolheu nomes que funcionam em dois sistemas de escrita ao mesmo tempo. Kitahara aponta que muitos homens de segunda geração, hoje com mais de sessenta anos, se chamam Jorge ou Mario, porque esses nomes também podem ser escritos em kanji, como aquele relato os apresenta: 譲二 e 真理雄. Marie e Maria fizeram o mesmo trabalho entre as mulheres.

Dito em voz alta na escola, o nome é brasileiro. Escrito em casa, é japonês. Nada fica escondido e nada é entregue, o que é uma engenharia silenciosa para colocar na mão de uma criança de seis anos.

Henrique Toshio, Leonardo Kei

O costume que substituiu aquele é mais simples e igualmente deliberado: um primeiro nome brasileiro com um nome do meio japonês. Os exemplos de Kitahara são Henrique Toshio e Leonardo Kei, e Kitahara escolheu o segundo para um filho, juntando um nome japonês ao de um jogador de futebol popular na época.

Qual dos dois cada pessoa usa se resolve caso a caso, conforme quem está chamando. Uma criança só, dois nomes, os dois verdadeiros.

O trânsito corre nos dois sentidos

O mesmo relato descreve famílias brasileiras sem ascendência japonesa escolhendo nomes japoneses, entre elas uma filha chamada Ayumi por causa da cantora Ayumi Hamasaki. Um costume que começou como um jeito de passar um filho pelo balcão do cartório hoje é uma coisa que os outros querem.

Em São Paulo, três mulheres de ascendência japonesa, Maíra Kimura, Yumi Shimada e Fernanda Ueno, imprimem Kimura, Shimada e Ueno em cada rótulo da cervejaria que tocam juntas, e batizaram a marca com japas, a gíria de rua para pessoas de ascendência japonesa. Os próprios nomes de batismo delas carregam a mesma divisão dos rótulos. Uma das fundadoras disse à The Beer Connoisseur que, por serem mulheres e descendentes de japoneses num mundo de domínio branco e masculino, importa mais do que nunca mostrar que representatividade importa.

Fontes

Os números da imigração vêm da Biblioteca Nacional da Dieta do Japão e do Ministério das Relações Exteriores do Japão, que contabiliza cerca de dois milhões de pessoas de ascendência japonesa ao lado de 47.472 cidadãos japoneses. As práticas de nomes e as histórias de família são do relato de Satomi Takano Kitahara para o Discover Nikkei, um projeto do Japanese American National Museum. Os números de popularidade nos Estados Unidos vêm dos registros da Previdência Social.

Veja o significado de Yumi e a curva completa de popularidade →Veja se Yumi combina com a sua família →
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